MARCHA DOS ANDADORES, "Marcha livre para o matadouro"

30.08 (dom.) / 17h00 / Av da Liberdade

Marcha Livre para o Matadouro

Quando nos confrontamos com um muro passamos a definir o mundo entre o lado de cá e o lado de lá. A divisão define uma fronteira e dois egos colectivos emergem. A oposição marca a diferença dada pelo constrangimento físico e pela barreira psicológica. O inimigo constrói-se desse instinto primário que não nos abandona apesar de uma pretensa civilização se esforçar por o disfarçar. O perigo de uma invasão desenvolve um mesmo desejo de defesa. O medo instala-se. O ser humano regride. No início era assim. As cidades muralhavam-se, os rios, os desertos e as montanhas tornavam-se fronteiras, os territórios definiam-se segundo a delimitação de barreiras difíceis de transpor.
Num mundo globalizado, os muros não ficam bem mas são tão ou mais necessários quanto a sua ancestralidade. As muralhas agora separam sem pudor o mundo dos ricos e o mundo dos pobres. O dinheiro e o poder segregam. As leis dividem e as diferenças aumentam, nessa nova ordem de poder ditada pela finança e pelos mercados. Mas há, ainda assim, que criar a ilusão das escolhas e das oportunidades, não vá tudo desabar, há que mostrar um mundo aberto e livre, pese embora termos que continuar a viver como rebanhos que seguem as direcções dos seus caciques gananciosos. Num viver cada vez mais embrutecido pela alienação e pelo desinvestimento no indivíduo e no social, cria-se a engenharia de se recolocarem de perfil os muros, criando a ilusão de duas escolhas. Podemos decidir ir pela esquerda ou pela direita, comprar bens na loja A ou B, votar no partido X ou Y, optar por um serviço ou por outro. Mas a passagem pelo muro de perfil que julgáramos um corredor livre faz-nos desembocar no mesmo lugar, porventura muito pior, acabada a travessia. Um lugar que pode mesmo chamar-se "matadouro". O capitalismo e o pensamento neoliberal eucaliptizam tudo à volta e promovem a bipolarização. "Escolher não escolher" é hoje a condição de um indivíduo, de uma comunidade ou de um país, reféns da sua própria ilusão de liberdade, enquanto a palavra democracia começa e acaba somente no acto de votar. Em A ou em B...