Os tempos estão a mudar

22ª Criação

A 4ª criação do Ciclo Invasões debruça-se sobre o tempo presente e sobre a própria cidade do Fundão. A cidade onde se ouvia num gira-discos Bob Dylan, um sopro nunca ouvido vindo de fora, até ao momento onde o cantautor já só é uma lenda esquecida, no turbilhão de uma sociedade de consumo que não deixa de atingir uma região também ela esquecida.
Pela guitarra de Jerónimo, contudo, ainda se consegue hoje ouvir "Don't think twice, it's all right" como se fosse ontem. E ontem são os tempos que estão a mudar... Figura incontornável da cidade, no seu tamanho grande e forte, cabelo grisalho apanhado atrás e chapéu "estilo americano", Jerónimo personifica a última história desta cidade.
Logo aos dezoito, interminavelmente, ouviu e praticou um Dylan que cantava a liberdade, a mudança, a força ou o desespero do ser humano e acabou a ganhar a vida em bares de Lisboa, como o Johnny Guitar. Ele não o imita, não, transporta-o, evoca-o. E pensamos isto mesmo: o teatro não trata de imitar mas de fazer viver outra vez, sendo que, para tal, por vezes, temos mesmo que trair a realidade que conhecemos. O seu sotaque serrano é o tom cerrado, rasgado do americano. Pedimos-lhe que toque uma vez mais "Hurricane". Ele responde, "oh!, essa música ouvia-a durante dois anos seguidos, todos os dias!...", e rebentam os inconfundíveis acordes, como se fosse a primeira vez.
Jerónimo tem cerca de oitenta discos do seu ídolo. Alguns, raríssimos, edições limitadas ou suspendidas em vinyl. É impressionante a entrega, feita somente de amor, de engajamento. Por isso mesmo, não se anula atrás do ícone da folk-rock. Quando passa, empresta a cada rua uma cor que rompe com as tonalidades cinza do viver egoísta que uma sociedade como esta impregna em cada um de nós. Há uma alegria certa, uma força que nos ajuda a aguentar nascida de alguém que se consagrou a outro.
Em "Os tempos estão a mudar / The times they are a-changin'", a Estação Teatral intensifica aquilo que vem chamando de exercício sobre a não-distância, sabendo que, para haver teatro, é sempre necessário guardar um espaço/tempo entre o ver e o fazer, entre a realidade representada e a realidade da representação, entre o corpo do ser e o da personagem. Aqui, Jerónimo será o actor e, simultaneamente, a personagem. Sê-lo-á, para contar de si, do que é esperar ou desesperar numa pequena cidade do interior, da paixão e do querer que nos faz "chegar lá" quando nada parece querer estar a mudar.

Dramaturgia e Encenação: Nuno Pino Custódio
Assistência de Encenação: Tiago Poiares
Espaço e Figurinos: Ana Brum
Desenho de Luz: Pedro Fino
Interpretação: Jerónimo Mateus, Roberto Querido, José Emilio Martins e Carlos Carrola