Eles tapam a cara com máscaras de lata e de madeira

23ª Criação

 

Quando a véspera se veste de dia derradeiro e o que era para acontecer afinal já não foi. Foi o que foi, e não haverá mais nada. Alguma coisa morreu por ali, depois de tantos e tantos anúncios, prenúncios, agoiros, recados. Quando a vida é movimento, em terra que está parada, feita de gente desencontrada, abandonada, angustiada ou sepultada viva – mas onde os sonhos não deixam de perpassar pela ténue fímbria que faz revelar uma esperança que nunca morre. Uma aldeia transmontana perdida por aí. Tem milénios de tradição, uma vida a desalmar e uma estrada mesmo ali ao lado. Sentido onde regressar parece ser viagem em contramão. Entre manter a sua cultura e ceder ao turismo fácil, algo parece irreversivelmente destinado a não ter mais interior.

Os rapazes livres chocalham as raparigas solteiras, poem-se eléctricos com os seus fatos, o mundo fica às avessas, a aldeia purga-se de anos cada vez mais difíceis, o vinho faz retardar as coisas e estas vão-se, revelando, mostrando, lentamente, com toda a força que a simplicidade tem, atrás de máscaras "medonhas". Até que todos caiam para o lado, morram, fiquem ali, prostrados no chão, como estrelas que se extinguem nesse sempre incompreensível espaço sideral. Tal como a própria festa que acaba. Festa de iniciação que acaba... para sempre. O que é feito desses moços com a vida pela frente e a morte atrás das costas? Partiram? Morreram? Andam somente por aí? Regressaram?

A Estação Teatral desenvolve esta sua última criação em torno do Careto e da tradição mascarada transmontana das festas de inverno. Máscara que se tem constituído desde o início como a sua ferramenta metodológica, norteando a companhia tanto na criação artística como na abordagem pedagógica de um teatro que se percebe cada vez mais necessário, justamente, nesta grande aldeia feita... de gente desencontrada, abandonada, angustiada ou sepultada viva.

Dramaturgia e encenação: Nuno Pino Custódio
(em co-criação com Alexandre Barata, Ana Brum, Ana Vargas, Patrick Murys, Pedro Fino, Roberto Querido e Tiago Poiares)
Espaço, figurinos e adereços: Ana Brum
Desenho e operação de luz: Pedro Fino
Máscaras: Tó Zé (Vila Boa de Ouzilhão) e Tó Alves (Varge)
Música: Nuno Pino Custódio (O medo vem do medo) e cancioneiro popular
Montagem: Pedro Fino
Costura: Lurdes Fortunato e Salvado & Matos
Fotografia: António Supico
Design de comunicação: Hugo Landeiro Domingues
Direcção de Produção: Alexandre Brarata
Produção executiva: Juliana Gamas

Actores: Ana Vargas, Patrick Murys, Roberto Querido e Tiago Poiares
Músicos: Alexandre Barata, Alfredo Abrantes, António Supico